quinta-feira, 20 de março de 2008

«Em silêncio diante d’Ele»

«Em silêncio diante d’Ele»

É o que me proponho fazer neste tempo de Quaresma e de Páscoa: procurá-Lo para ficar diante d’Ele, em silêncio...

A visita ao Santíssimo, o tempo de adoração que podemos fazer, não substitui nem se confunde com a Comunhão de cada Missa. São gestos diferentes, mas ambos necessários.

Na Comunhão é Ele que nos invade, é Ele dentro de nós, tão dentro e tão íntimo que, como a nós, não O vemos. Na Adoração ao Santíssimo, é Ele diante de nós, somos nós diante d’Ele. É o frente-a-frente, o cara-a-cara. Nós vemo-Lo e Ele, sabemos e acreditamos, vê-nos.

Ás vezes parece-me tempo perdido, o que passo, sentado ou ajoelhado diante da Hóstia branca e redonda, fina e frágil, ladeada por velas acesas. Nada acontece. Não me saem as palavras, não me vêm pensamentos edificantes, nada... só silêncio. E mortifico-me com perguntas e dúvidas sobre o sentido daquele meu gesto, daquele meu tempo ali passado. Que umas vezes voa e outras parece não passar.

Vou então aprofundando as verdades da minha fé e as razões da minha vida, e tudo ganha sentido quando relembro a mim próprio que não depende de mim o significado, a verdade e o proveito daquele gesto... mas d’Ele e só d’Ele. A sua Presença ali, viva e verdadeira, não depende do meu estado de alma, nem do meu estado de graça ou de pecado, nem da minha vontade... mas d’Ele e só d’Ele.

Deus está ali e isso basta! E se Deus está ali, eu estou com Ele. E se eu estiver com Ele, que mais posso querer? Que mais posso pedir? Que outra coisa melhor me poderia acontecer, em todo o meu dia?

E se eu estiver junto d’Ele, ainda que mudo e quedo, Ele fará o que eu não sei fazer e Ele dar-me-á o que eu não sei pedir. Eu só tenho que ir ao seu encontro, num acto de vontade própria e livre e oferecer a minha aridez, a minha mudez, o meu silêncio... e isso Lhe basta. Porque o que verdadeiramente Ele quer de mim, não são tanto as coisas boas que pensei, que disse ou que fiz. Ele quer de mim muito mais do que isso: Ele, de mim, quer tudo! Quer a minha vontade, o meu coração, a minha pessoa, a minha vida inteira. Quere-a tal como ela é, com os defeitos e as virtudes que ela tem. Quere-me, a mim!

É por isso que uma Visita ao Santíssimo faz-me crescer como pessoa, porque ainda que nada tenha para Lhe dizer, relembra-me o amor que Ele me tem que O faz estar ali... à minha espera... sempre.

É esta a minha proposta para este tempo de Quaresma. Eu sei que é difícil arranjar tempo para o fazer. Ainda bem, porque assim, tem muito mais sabor... e Ele há-de gostar ainda mais!

Rui Corrêa d’Oliveira
“Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo”

Ficamos de imediato com a impressão de uma santidade inefável, de uma dignidade sublime, de uma pureza sem sombra, mas também com a convicção de uma grandeza divina.

Mas se o Divino nos assusta n’Ele pelo poder, pela glória, pela sublimidade soberanas, o humano atrai-nos com irresistíveis encantos. A sua compaixão pelos que sofrem comove-nos; a sua atitude para com os pecadores arrebata-nos, e a admiração apodera-se de nós perante as suas inefáveis condescendências. Ele, que se apresenta aos discípulos e lhes propõe uma doutrina moral de uma rudeza impressionante, enche-se de piedade perante uma alma que se agita impotente nas malhas do pecado, contempla emocionado o menor progresso de uma boa vontade que avança pelo caminho novo, e estremece de gozo ao ver um ténue raio de luz na alma de um homem.

Ele próprio é um homem, um homem que chora, que reza, que se comove, que sente fadiga, que se vê esgotado pela fome, que tem as suas angustias e suas preferências, que se indigna e se comove, se entusiasma e se enche de tristeza. Embora isento do mal moral e do remorso, nada de autenticamente humano é alheio a Ele. No seu trato com os homens notamos uma mistura de doçura e de majestade, de autoridade consciente e abnegação total, que nos revelam ao mesmo tempo o Filho de Deus e o Filho do homem, como Ele gostava de se chamar a si próprio. Cura, exorciza, absolve, increpa os ventos, acaricia as crianças, compadece-se da multidão, aceita as comidas que lhe oferecem tantos os ricos como os pobres; fala com os ám-há-rez, coisa nefanda para um fariseu, e não só permite que se aproximem Dele os pecadores e os publicanos, como parece ter por eles uma espécie de preferência. Ama-os com essa ternura insistente e inquieta que as mães têm com os filhos ameaçados pela doença ou pela morte. Que paciência tem para todas as ignorâncias e fraquezas! Que doçura e que energia para instruir os discípulos, para suportar as suas imperfeições, para lhes revelar, um por um, os grandes preceitos da nova lei: os deveres de humildade, as alegrias da ajuda fraterna, o perdão das injúrias, o préstimo amável, que não degrada e que enche de gozo o coração.

Acessível, misericordioso, familiar; grandeza heróica, dignidade inefável, soberana pureza; limpidez de palavra, limpidez de pensamento e limpidez de vida. Jesus oferece-nos já, considerado só na intimidade da sua vida e na graça da sua humanidade, a partir do seu ministério público, a mais bela imagem que aos homens foi dado contemplar.

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A todos uma Santa Páscoa.
Roy.